Thursday, June 14, 2018

O Ooni de Ifé visita o Espaço onde era o Candomblé da Barroquinha



Depois de marchas e contramarchas (pois o seu avião atrasou por três vezes), chegou no Aeroporto Luís Eduardo Magalhães da cidade de Salvador no dia 8 de junho (a previsão era para a chegada acontecer no dia 6 deste), o Ọọ̀ni Ilè-Ifẹ̀ [Ooni de Ilê Ifé], Sua Majestade Imperial, o Dr. Adeyeye Babatunde Enitan Ogunwusi, o Ojaja II.
A palavra Ọọ̀ni é uma referência a contração das palavras na frase “Ọ ní òrìṣà ” ou "Ọnirìṣà" que significa “Ele está em Orixá” ou, “Ele fala Orixá”, ou "Ele cuida dos Orixás, ou mesmo, “Ele é Orixá”.
Cabe ao Ooni de Ifé zelar primordialmente dos quatrocentos mais um (400+1) Orixás, na condição de Sumo Sacerdote do Culto aos Orixás
Ele é o governante tradicional de Ile-Ifè, uma cidade-estado da Nigéria, o berço do povo e da civilização Yoruba. É um Chefe de Estado e deve cumprir funções políticas entre todos os Yorubas, tando na Nigéria como em todos os lugares do mundo onde vivem Yorubas, de toda e qualquer religião.
As dinastias dos Ooni remontam a centenas de anos e todos esses monarcas são rastreados até Oduduwa, que é o pai ancestral de todo o povo Yoruba. O Ooni Oranmiyan, que se acredita ter vivido entre 1200 e 1300 D.C, se tornou lendário por seu papel na criação de muitos novos reinos Yorubas. Conta a história, que um de seus filhos, de nome Eweka, se tornou o primeiro Ọba do Reino de Benin (não confundir com a República do Benin), um território que hoje é um estado da Nigéria), um Reino famoso pelas sua arte em bronze que nos alcança em nossos dias atuais.
A maioria das narrativas orais, que depois foram registradas em livro, falam que o primeiro Aláàfin (Governante) de Ọyọ foi o próprio Oranmiyan. Seu filho Ajaka, o sucedeu e se tornou assim o segundo Aláàfin de Ọyọ. Ajaka foi sucedido por Ṣàngó que se tornou o terceiro Aláàfin de Ọyọ.  
Voltando ao tema Ile-Ifé, o Ooni Adeyeye Enitan Ogunwusi Ojaja II é o 51º Ọọ̀ni Ilè-Ifẹ̀.
No domingo dia 10 de junho próximo passado, o Ooni foi recebido por autoridades eclesiásticas do candomblé e por autoridades civis do estado e do município no Espaço Cultural da Barroquinha, local onde foi instalado e funcionou o  mais antigo templo africano (até ser dali expulso pelas autoridades no fim do século XIX), onde proclama a Bahia como Capital da Nação Iorubá nas Américas.

Tive a honra de recebe-lo falando a nossa língua comum, a língua Yoruba, dizendo:

“ Kabiyesi, Ẹ kaabọ̀

Ẹ jẹ ki   a gbé èdè àti àṣà Yorùbá Lárugẹ. Ẹ káààsan

Mo ki gbogbo yin, awọn ọmọkunrin ati awọn awọn ọmọbirin

Orukọ temi ni professor Adelson.

Mo ki Kabiyesi Ọba Adeyeye Enitan Babatunde Ogunwusi Ojaja II, Ọmọ-ọmọ Odùdúwà ti o wa ni Salvador lati ṣe tún fi agbara kún awọn asopọ laarin awọn ẹsin ati awọn àṣà ibilẹ ọmọ yoruba kaakiri lagbaye. ”
 
Tradução

Boa tarde.
Saúdo a todos aos senhores e as senhoras
Vamos manter a língua e a cultura Iorubá vivas.
Meu nome é Professor Adelson
Saúdo sua Majestade O rei Ooni Adeyeye Enitan Babatunde Ogunwusi Ojaja II, descendente direto de Odùdúwà que está em Salvador para reforçar os laços religiosos entre todas as religiões e as tradições culturais Iorubá entre todos os seus descendentes Ioruba espalhados por todo o mundo
 
Fui tomado por tão grande emoção que me deu uma gagueira e eu tive que usar também a língua inglesa.

Referencias:

1.    List fo rulers od Ifé; https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_rulers_of_Ife
           (acessado em 14/06/18)

2.    List of rulers of the Yoruba state of Oyo; https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_rulers_of_the_Yoruba_state_of_Oyo (acessado em 14/06/18)

3.    Ooni of Ife visits oldest African temple, proclaims Bahia capital of Yoruba nation in South America Read more: https://www.naija.ng/1175090-ooni-ife-visits-oldest-african-temple-proclaims-bahia-capital-yoruba-nation-south-america.html#1175090 (acessado em:


 

 

Tuesday, February 27, 2018

O medo fez do Tigre um gatinho de estimação




 

Ẹ̀rù ló sọ ọmọ Ẹkùn di lógbò/Ológìní tó fi di “Ẹran-àmúsìn – Ọdẹ peku-peku”

Ni igbà àtijọ́, ẹranko ti wọn pè ni Ẹkùn jẹ alágbára ẹranko, bẹni Kìnìún si jẹ́ alágbára ẹranko.  Bi Kìnìún ti lágbára tó ninú igbó, bi ó bá bú ramúramù, ohun gbogbo ninú igbó á pa kẹ́kẹ́ titi dé ori ẹranko yoku. Ti Ẹkùn nikan ló yàtọ̀, nitori Ọlọrun fún ni ẹ̀bùn igbóyà, idi niyi ti a fi ńpè ni “Baba Ẹranko”, ti a ńpè Kìnìún ni “Ọlọ́là Ijù”.
 
Ni ọjọ́ kan, Ẹkùn gbéra lọ sinú igbó lati lọ wa oúnjẹ fún àwọn ọmọ rẹ, àwọn ọmọ ẹ kéré wọn kò lè yára bi iyá wọn.  Ó fún wọn ni imọ̀ràn pe ki wọn kó ara pọ̀ si ibi òkiti-ọ̀gán ti ohun ti lè tètè ri wọn, ṣùgbọ́n wọn kò gbọ́dọ̀ bẹ̀rù fún ohunkóhun tàbi ẹranko ti ó bá wá si sàkáni wọn.
Gẹgẹ bi a ṣe mọ, Kìnìún àti Ẹkùn, ọ̀gá ni onikálùkù láyé ara wọn, wọn ki ja.  Ibi ti Kìnìún bá wà Ẹkùn kò ni dé ibẹ̀, ibi ti Ẹkùn bá wà Kìnìún ò ni dé ibẹ̀.  Nitori èyi ni Yorùbá fi npa lowe pé “Kàkà ki Kìnìún ṣe akápò Ẹkùn, onikálùkù yio má ba ọdẹ rẹ̀ lọ”.
Lai fà ọ̀rọ̀ gùn àwọn ọmọ Ẹkùn gbọ́ igbe Kìnìún, wọn ri ti ó ré kọja, àwọn ọmọ Ẹkùn ti ẹ̀rù ba ti kò ṣe bi iyá wọn ti ṣe ìkìlọ̀, ìjáyà bá wọn, wọ́n sá.  Nigbati Ẹkùn dé ibùdó rẹ lati fún àwọn ọmọ rẹ ni ẹran jẹ, àwọn ọmọ rẹ kò pé, ṣ̀ugbọ́n àwọn ọmọ ti ijáyà bá padà wá bá iyá wọn, nigbà yi ni iyá wọn rán wọn leti ikilọ̀ pé wọn kò gbọ́dọ̀ jáyà.  Nitori èyi, ohun kọ̀ wọ́n lọ́mọ.
Nigbati iyá wọn kọ̀ wọ́n lọ́mọ, wọn kò lè ṣe ọdẹ inú igbó mọ́, wọn di ẹranko tó ńrágó, ti wọn ńsin ninú ilé, to ńpa eku kiri.  Idi èyi ni Yorùbá fi npa ni òwe pé “Ìjayà ló bá ọmọ Ẹkùn ti ó di Ológbò ti ó ńṣe ọde eku inú ilé.

Tradução

Nos tempos antigos, o "Tigre" era um animal poderoso, assim como o Leão, que era muito poderoso. Quando o Leão rugia, tudo na selva ficava em silêncio. Somente o Tigre era diferente porque ele / ela era dotado de ousadia. Daí ele ser chamado de "Pai dos animais" enquanto o Leão é conhecido como "Rei da Selva".
Um dia, a tigresa deixou o seu lugar na selva para ir buscar comida para seus filhotes que não eram tão rápidos quanto sua ela. Ela os instruiu para se reunissem e ficassem em cima de um monte, onde ela poderia vê-los rapidamente. Instrui-os também que eles não deviam ter medo de nada nem de outros animais que se aproximassem deles.
Como é sabido, o Leão e o Tigre eram chefes com muita propriedade em seus respectivos direitos. Eles nunca lutaram. Onde quer que o Tigre fosse, o Leão não cruzaria, e vice-versa. Como resultado, o provérbio Yoruba disse: "Em vez do Leão se tornar o tesoureiro do Tigre, cada um segue seus caminhos em separado".
Para não prolongar o assunto, os filhotes da Tigresa ouviram o rugido do Leão quando este passou perto deles. Aí alguns dos filhotes sentiram medo e desobedeceram a instrução de sua mãe para não terem medo, e então eles correram.
Quando a Tigresa chegou com a presa para alimentar seus filhotes, eles estavam incompletos. Mais tarde aqueles que haviam fugido, voltaram. Encontraram a mãe que lembrou suas instruções para não temer. Como resultado da desobediência, ela os desprezou.
Como sua mãe os rejeitou, eles cresceram sem aprender a caçar e não conseguiram sobreviver na selva, e não sobrou para eles outra alternativa a não ser se tornar animais domesticados e viver caçando ratos.
 É por isso que o provérbio Yoruba diz: "É o medo que transformou o filhote do tigre no gato que caça os ratos da casa".

Referencias:

(acessado em 27/02/18)  

 


Thursday, February 22, 2018

Vivendo hoje nos tempos de Oxóssi





Láyé àtijọ́, iṣẹ́ Ọdẹ jẹ ikan ninú iṣẹ gidi ni ile Yorùbá.  Ògbójú Ọdẹ ló npa ẹranko bi Erin, Ẹkùn, Kìnìún àti Ẹfòn, Ìmàdò, Ikõkò, nígbàtí àwọn to nṣe Ọdẹ etílé npa ẹranko ìtòsí ilé bi Ọ̀kẹ́rẹ́, Òkété, Ọ̀bọ àti bẹ̃bẹ lọ.  Ẹran ìgbẹ bi Ìgalà, Àgbọ̀nrín àti , ẹran ọ̀sìn bi Àgùntàn, Ewurẹ, Òbúkọ, Ẹlẹ́dẹ̀ jẹ ẹran tí o wọ́pọ̀ fún jíjẹ ni ayé àtijọ dípò ẹran Mãlu tí ó wá wọpọ láyé òde òní
Tradução

No passado, a caça era um dos maiores meios de subsistência na terra Ioruba. Apenas caçadores altamente qualificados mataram animais como elefantes, leopardos, leões e búfalos, javalís e lobos, enquanto os caçadores de bairros caçavam animais mais próximos de casa, como esquilos, ratos do mato, macacos, etc. Carne de animais como cervos veados, veados e animais domésticos, como ovelhas, cabras, bodes e porcos eram fontes comuns de carne naqueles dias em vez de carne de boi como se tornou comum nos dias atuais.

O texto acima está em um post publicado no blog intitulado “The Yoruba blog”, cujo título  (do post) é “Bi Ọdẹ bá ro ìṣẹ́ ro ìyà inú igbó, ti ó bá pa ẹran kòní fẹ́nì kan jẹ”.  O blog se constitui uma iniciativa maravilhosa pela preservação e divulgação da Língua e da Cultura Iorubá, assinado por uma pessoa que se intitula Bim A.
A frase é, em verdade, um  provérbio Iorubá. Em Português, seria “Se o caçador considerar o sofrimento que ele passa na floresta, para conseguir sua caça, ele não a dividiria com mais ninguém”. Em verdade, o  texto do blog vai além e diz:

A lè fi ò̀we Yorùbá “Bi Ọdẹ bá ro ìṣẹ́ ro ìyà inú igbó, ti ó bá pa ẹran kòní fẹ́nì kan jẹ” wé ìyá ti àwọn ti ó wà ni Ìlúọba/Ò̀kèòkun njẹ nínú òtútù lati pa owó.  Nínú owó yi, wọn a ronú àti ran àwọn ẹbí àti ọ̀rẹ́ lọ́wọ́, ṣùgbọ́n ọ̀pọ̀lọpọ̀ àwọn ti wọn gbìyànjú lati ràn lọ́wọ́, ki i wo ìya ti ojú wọn rí.
Tradução
O significado literal deste provérbio Yoruba: “Se o caçador considerar o sofrimento que ele passa na floresta, para conseguir sua caça, ele não a dividiria com mais", pode ser aplicado aos que vivem no Reino Unido e em outras partes do mundo, que têm de ganhar a vida em climas frios e culturas estranhas. Enquanto eles pensam em enviar o dinheiro tão arduamente disputado para ajudar pais e amigos, aqueles que recebem tal ajuda nunca pensam no sofrimento que eles enfrentam.
Esse provérbio se aplica como uma luva no nosso mundo de hoje. Se aplica, por exemplo, à parte da nossa juventude que não percebe o custo envolvido no sacrifício feito pelos pais para que eles possam se educar e melhor se preparar para enfrentar o futuro.
Esses pais, essa mães que  emigram, vão para o distante e desconhecido, muitas vezes desumano e xenófobo,  em busca do sustento (do pão, do alimento para a sua família, que fica na terra natal), estarão cumprindo a sina de Oxóssi, do Espirito do Caçador que caçou para alimentar a sociedade inteira da vila onde vivia. Os imigrantes devem pedir a proteção de Oxóssi, o Espírito do Caçador. Aqui lembramos desse pedido de proteção, trazendo um Oriki (panegírico) famoso para Oxóssi, diz:

Ọ̀şọ̀ọsi.
Awo ọ̀dẹ ìjà pìtìpà.
Ọmọ  ìyá ògún oníré, Ọ̀şọ̀ọsi gbà mí o.
Ọ̀şọ̀ọsi. Òrìşà a dínà má yà.
Ọdẹ ti njẹ orí ẹran
Ẹlẹ́wà òşòòşò.
Òrì
şà tí ngbélé imọ̀,gbe ilé ewé.
A bi àwọ̀ lóló.
Ọ̀şọ̀ọsi ki nwọ igbó, ki igbó ma mi tìtì.
Ọfá ni mọ́gàfí ìbọn
O ta
ọfà sí iná,Iná kú pirá.
O tá
ọfà sí Oòrùn,Oòrùn rẹ̀ wẹ̀sẹ̀.
Ogbàgbà tí ngba ọmọ rẹ̀. Oní màríwò pákó.
Ọdẹ bàbá ò. O dé ojú ogun,
O fi ọfà kan şoşo pa igba ènìyàn
O dé ninú igbó, O fi
ọfà kan şoşo pa igba ẹranko.
A w
ọ ẹran pa sí ojúbọ Ògún lákayé,
Má w
ọ mí pa o. Má sì fi ọfà ọwọ rẹ dá mi lóró.
Ọdẹ ò, Ọdẹ ò, Ọdẹ ò,
Ọ̀şọ̀ọsi  ni nbá ọdẹ inú igbo jà,wípé kí ó dẹ igbó re.

Ọ̀şọ̀ọsi oloró tí nbá ọba şẹ́gun,O bá Ajẹ́ jà,Ọ şẹ́gun, Ọ̀şọ̀ọsi o ! Má bà mi jà o.
Ògún ni o bá mi
şẹ o.
Bí o bá nb
ọ̀ láti oko, kí o ká ilá fún mi wá. Kí o re ìréré ìdí rẹ̀.
Má gbàgbé mi o,
Ọdẹ ò, bàbá ọmọ kí ngbàgbé ọmọ.

Tradução
 
Oxóssi !
Ó Orixá da luta,
irmão de Ògún Onírè.
Oxóssi, me proteja !
Orixá que tendo bloqueado o caminho, não o desimpede.
Caçador que come a cabeça dos animais.
Orixá que come ewa osooso.
Orixá que vive tanto em casa de barro
como em casa de folhas.
Que possui a pele fresca.
Oxóssi não entra na mata
sem que ela se agite.
O arco é a arma poderosa que o pai usa em lugar de espingarda.
Ele atirou a sua flecha contra o fogo,
o fogo se apagou de imediato.
Atirou sua flecha contra o sol,
O sol se pôs.
Ó salvador, que salva seus filhos !
Ó senhor do mariwo pakô!
Meu pai caçador chegou na guerra,
matou duzentas pessoas com uma única flecha.
Chegou dentro da mata,usou uma única flecha para matar duzentos animais selvagens.
Arrasta um animal vivo até que ele morra e o entrega no Ojubó de Ògún.
Não me arraste até a morte.
Não atire sofrimentos em minha vida, com seu arco.
Ó Odé! Ó Odé! Ó Odé!
Dentro da mata, é Oxóssi que luta ao lado do caçador para que ele possa caçar direito.
Oxóssi, o poderoso, que vence a guerra para o rei.
Lutou com a feiticeira e venceu.
Ó Oxóssi, não brigue comigo.
Vence as guerras para mim
Quando voltar da mata,
Colhe quiabos para mim.
E, ao colhê-los, tire seus talos.
Não se esqueça de mim.
Ó Odé, um pai não se esquece do filho.

Referencias:


 

Wednesday, February 21, 2018

Àṣẹ, Kábiyèsí...Káwó Kábíẹ̀sílẹ


A textualização da História de Xangô começa, em geral , assim:

Ni ákókò kan gẹgẹbi itan ti sọ Ṣàngó jẹ Ọba l´ode Ọ̀yọ-ilé ti njẹ “Ẹyeọ́ tabi Kátúngá ni ákókò naa.
Ṣàngó jẹ ikẹta Alááfin ti Ọ̀yọ. Ọmọkunrin ikeji ti Ọ̀rányàn bi Ṣàngó n̄ṣé. Ó tun jẹ òrìṣà kan ti iran rẹ̀ kun fun ibẹ̀ru. Ìrìsí òrìṣà yi tilẹ ba´ni l´ẹru pèlú. Ìṣe ati isọ̀rọ̀ rẹ̀ paapaa kun fun ibẹ̀ru nigba ti o wa laaye nitori pé eniyan l´agbọ pé Ṣàngó jẹ ki o to di òrìṣà ààrá.
Tradução
Como a história registar, houve uma época na qual Xangô reinou sobre Oyó que se chamava Eyeó ou Katunga, naquela época. Xangô foi o terceiro Imperador (Alaafin) de Oyó. Era o segundo filho de Oranian Ele também é uma divindade (Orixá) que impôs temor ao povo do seu tempo (de sua geração). Sua postura era mesmo impressionante. Enquanto vivo, suas ações e falas se impunham pelo temor e respeito que despertavam nas pessoas porque se acreditava que Ele se tornaria o Deus do trovão.
 
Essa característica veio a somar para a reputação de Deus vingativo associada a Xangô. Um cântico entoado em algumas Casas emblemáticas do Culto ao Deus do Trovão, diz isso. O cântico diz assim (no ritmo Ilù).
 
Ó níká wọn ńbọ l´ọ̀na àìkàsí rẹ̀
Ó níká wọn ààbò l´ọ̀na ki wọn gbà ẹ̀yin jẹ
Ẹran´gùtàn, Ọba kò wọn so, wọn ó pàdé l´ọ̀na
Wọn nìkàsí rẹ̀, wọn ńbọ si àrá ẹ̀yin a róòde ó
Bàrà wọn nìkàsí o ní jẹ́ kòso, àrá ẹ̀yin a róòde...
 
                                                                                           (OLIVEIRA, A. B.; o Altair T´Ogun)
Tradução
 
Ele contou os que caíram no caminho, por desrespeitarem-no,
Ele contou os que ele abençou no caminho, que lhe deram carne de carneiro para comer, Ele os governa, e eles o encontram
No caminho e rendem-lhe seus respeitos
Eles cultuam seus raios, quando este os circunda no bara (mausoleu real).
Eles vão apresentar seus respeitos àquele que foi coroado. Vosso raio ao redor, no mausoleu real.
Eles vão apresentar seus respeitos, àquele que foi coroado.
Definitivamente, a humildade e a predisposição constante para o aprendizado são itens fundamentais para o pleno exercício do sacerdócio, ou mesmo para a saudável interação com a ancestralidade Iorubá-Nagô.
Em julho de 2014, a cidade de Salvador recebeu a visita do Rei HRH (His Royal Highness, ou seja, Sua Majestade Real) o Oba Lamidi Adeyemi III Aláàfin [Imperador, Monarca] de Oyó , o Grande Imério onde Xangô reinou, e eu tive a imensa honra de participar do evento e interagir com nossos irmãos e irmãs Iorubá que formavam a sua comitiva.
Durante o discurso do Monarca, nós ali presentes eramos orientados por um assessor real da sua comitiva para aclamá-lo dizendo, a cada momento propicio, a todo peito, a palavra:  
“Kábiyèsí!”
Ora, mas em verdade os presentes, na sua grande maioria, povo de axé, insistia em gritar:
“Kábíẹ̀sílẹ!”
O assessor real então insistia para que a gente gritasse:
Kábiyèsí!,
Mas povo de axé, insistia:
Kábíẹ̀sílẹ!
E então é Kábiyèsí ou Kábíẹ̀sílẹ?
As duas expressões estão corretas.
A vida do Iorubá enquanto jornada ao longo da superfície do planeta Terra deve ser guiada pelo manuscrito sagrado (composto por livros orais denominados Odú) chamado Ifá. Essa jornada está repleta de obstáculos (Ajogun) que são as forças contrárias a afirmação do homem sobre o comando da sua jornada individual e coletiva. Voluntariamente ou involuntariamente, a humanidade acabará por ter que enfrentar essas forças, dentre as quais está Ikú [Morte]. Os pés são a ligação direta do corpo com a terra, a grande bacia na qual o cainho a ser seguido está traçado. Os pés não detém poder de decisão sobre o caminho. Esse poder é atributo de Ori, o ser inteligente que mora na cabeça física do indivíduo e conhece o seu destino antes durante de depois. É Ori que vê, que sabe que existe um outro Ori conhecedor do caminho traçado pelo contrato ancestral para dar ao indivíduo membro da sociedade Iorubá a guia fórmula para a sua caminhada. Esse Orí Principal mora na cabeça daquele nascido para ser coroado: O Rei. Portanto, para aspirar ao sucesso, os pés devem estar em harmonia com a cabeça comandante e esta cabeça deve estar alinhada e sintonizada com a matriz sagrada: Ifá
Daí o pináculo da sociedade, o chefe sacerdotal do processo litúrgico. Por essa função exige que o rei deva ser necessariamente um rei sacerdotal. Em Ifé é o Ooni, e em Oyó é o Aláàfin (que significa “Dono do Palácio, que é o Templo Absoluto).Por isso é que se saúda o Rei dizendo:

“Kábiyèsí o, ọba aláṣẹ, ikeji òrìṣà, ki adé pẹ lórí, ki bàtà pẹ lẹsẹ, ki ìrùkẹrẹ pẹ lọwọ,
Ki ẹṣin ọba jẹ ko pẹ o, Kábiyèsí o".
 
Tradução
Salve, Ó Majestade, Rei poderoso (dono do axé), segunda pessoa dos deuses, salve a Coroa que que orna Vossa nobre cabeça, salve o Calçado sob os Vossos pés. Salve o Irukere que porta na sua mão. Que o seu cavalo coma a grama (tenha força para carrega-lo)/que voce tenha longa. Salve, Ó Majestade.
 
Ou seja, o assessor real nos pedia para suadar o rei somente como Monarca e não como Sacerdote Mor. Por que....???
Na próxima semana tem mais sobre Xangô, que Ele assim nos conceda.

Referencias:
1.      Aṣe ati Òrìṣà Ilẹ Yoruba; pg. 285
3.
 
 

 

Saturday, February 17, 2018

A força do ọfọ̀ no discurso mágico do Àdúrà



A benção aos meus mais velhos e aos meus mais novos também.
O iorubá costuma dizer:
 
“Àdúrà ló ńgbà, agbára ki gbà

Lati ọjọ́ ti aláyé ti dá ayé ni Yorùbá ti ni ìgbàgbọ́ ninu ki a gba àdúrà nitori pe ohun gbogbo fẹ́ àdúrà “Ohun ti o dára fẹ́ àdúrà ki ó bà lé dára si, eyi ti kò dára na fẹ́ àdúrà ki ó bà lé yanjú ...”. 

Tradução

“ A oração traz o que a força não traz

Desde a criação, o povo iorubá sempre acreditou em orar porque todas as coisas requerem oração. ‘O que é bom exige oração para sustento, o que é ruim requer oração para sua solução’ ...".
 
Na minha modesta opinião, a interpretação vigente que pauta o Candomblé vem a se constituir uma das nossas maiores vulnerabilidades e que está sendo habilmente explorada pelas correntes da intolerância.
Nós, de um modo geral, entendemos que a liturgia é uma atividade dissociada da história, ou seja: a liturgia é objeto de ensino e aprendizagem prática, distante de um exercício intelectual e isso não é, nunca foi e nunca será uma leitura confiável do quadro real. Um dos fundamentos da liturgia é o conhecimento dos itán. Os ẹbọ repetem as inspirações que levaram os Ẹbọra (Homens que se tornaram Orixás) às vitorias ao longo das suas incríveis jornadas e as Ayabás a construírem os seus legados de empoderamento.
Quanto mais se conhece os itán, hoje acessíveis vias literatura, maior o conhecimento sobre os ẹbọ.  
No fundo os nossos irmãos ainda consideram que fazer Candomblé é uma atividade restrita à habilidade prática de fazer ẹbọ.
Repetindo todas as bênçãos que mencionei acima, peço “àgò” para discordar. O amalgama de religiões referidas pela palavra Candomblé vai além dessa fronteira para se inserir em um contexto mágico social. Candomblé é um estilo de vida que toma a magia como essência da sua existência nas dimensões espaço temporais intangíveis do Universo, e toma a história como sua pedra de fundamento dentro do contexto da evolução social do homem africano no continente negro e no resto do mundo.
O Candomblé é um fragmento do grande iceberg que é o Ifá, um sistema filosófico e histórico que se constitui um testemunho privilegiado do surgimento e florescimento de civilizações africanas que, em múltiplos de milênios, antecederam o advento da Europa do homem branco. Sem essa base, o Candomblé estará reduzido ao exercício atávico de um movimento de resistência pontual semelhante ao que se viu  no gueto de Varsóvia durante a Segunda Guerra, e o tempo de existência e resistência do Candomblé na corrobora tal tipificação. Penso que a linguagem é uma parte fundamental da comunicação com a Ancestralidade. É o veículo do ọfọ̀ (palavra que transforma verbo em magia).
É aí que se torna interessante notar como o distanciamento resultante do não alinhamento transnacional (que resulta do nosso isolamento linguístico, no momento em que não dominamos qualquer das línguas da Costa ocidental da África, envolvidas no nosso processo litúrgico) em nível de manutenção de estruturas de comunicação litúrgica atualizada, influi para que algumas adaptações se desenvolvam alheias ao fluxo de informação concatenada entre as duas margens do Atlântico. Assim, sem o domínio do idioma que promova a comunhão se torna difícil o traçado de uma linha que auxilie a elucidação dos elos entre o que se passou na África e o que se consolidou por aqui.
Concluo essa breve intervenção, pleiteando que o nosso exercício litúrgico se debruce sobre a  humildade, a contrição e a dedicação ao processo litúrgico, para qual penso imprescindível o domínio litúrgico da língua Iorubá. 


Referencia: