Wednesday, February 21, 2018

Àṣẹ, Kábiyèsí...Káwó Kábíẹ̀sílẹ


A textualização da História de Xangô começa, em geral , assim:

Ni ákókò kan gẹgẹbi itan ti sọ Ṣàngó jẹ Ọba l´ode Ọ̀yọ-ilé ti njẹ “Ẹyeọ́ tabi Kátúngá ni ákókò naa.
Ṣàngó jẹ ikẹta Alááfin ti Ọ̀yọ. Ọmọkunrin ikeji ti Ọ̀rányàn bi Ṣàngó n̄ṣé. Ó tun jẹ òrìṣà kan ti iran rẹ̀ kun fun ibẹ̀ru. Ìrìsí òrìṣà yi tilẹ ba´ni l´ẹru pèlú. Ìṣe ati isọ̀rọ̀ rẹ̀ paapaa kun fun ibẹ̀ru nigba ti o wa laaye nitori pé eniyan l´agbọ pé Ṣàngó jẹ ki o to di òrìṣà ààrá.
Tradução
Como a história registar, houve uma época na qual Xangô reinou sobre Oyó que se chamava Eyeó ou Katunga, naquela época. Xangô foi o terceiro Imperador (Alaafin) de Oyó. Era o segundo filho de Oranian Ele também é uma divindade (Orixá) que impôs temor ao povo do seu tempo (de sua geração). Sua postura era mesmo impressionante. Enquanto vivo, suas ações e falas se impunham pelo temor e respeito que despertavam nas pessoas porque se acreditava que Ele se tornaria o Deus do trovão.
 
Essa característica veio a somar para a reputação de Deus vingativo associada a Xangô. Um cântico entoado em algumas Casas emblemáticas do Culto ao Deus do Trovão, diz isso. O cântico diz assim (no ritmo Ilù).
 
Ó níká wọn ńbọ l´ọ̀na àìkàsí rẹ̀
Ó níká wọn ààbò l´ọ̀na ki wọn gbà ẹ̀yin jẹ
Ẹran´gùtàn, Ọba kò wọn so, wọn ó pàdé l´ọ̀na
Wọn nìkàsí rẹ̀, wọn ńbọ si àrá ẹ̀yin a róòde ó
Bàrà wọn nìkàsí o ní jẹ́ kòso, àrá ẹ̀yin a róòde...
 
                                                                                           (OLIVEIRA, A. B.; o Altair T´Ogun)
Tradução
 
Ele contou os que caíram no caminho, por desrespeitarem-no,
Ele contou os que ele abençou no caminho, que lhe deram carne de carneiro para comer, Ele os governa, e eles o encontram
No caminho e rendem-lhe seus respeitos
Eles cultuam seus raios, quando este os circunda no bara (mausoleu real).
Eles vão apresentar seus respeitos àquele que foi coroado. Vosso raio ao redor, no mausoleu real.
Eles vão apresentar seus respeitos, àquele que foi coroado.
Definitivamente, a humildade e a predisposição constante para o aprendizado são itens fundamentais para o pleno exercício do sacerdócio, ou mesmo para a saudável interação com a ancestralidade Iorubá-Nagô.
Em julho de 2014, a cidade de Salvador recebeu a visita do Rei HRH (His Royal Highness, ou seja, Sua Majestade Real) o Oba Lamidi Adeyemi III Aláàfin [Imperador, Monarca] de Oyó , o Grande Imério onde Xangô reinou, e eu tive a imensa honra de participar do evento e interagir com nossos irmãos e irmãs Iorubá que formavam a sua comitiva.
Durante o discurso do Monarca, nós ali presentes eramos orientados por um assessor real da sua comitiva para aclamá-lo dizendo, a cada momento propicio, a todo peito, a palavra:  
“Kábiyèsí!”
Ora, mas em verdade os presentes, na sua grande maioria, povo de axé, insistia em gritar:
“Kábíẹ̀sílẹ!”
O assessor real então insistia para que a gente gritasse:
Kábiyèsí!,
Mas povo de axé, insistia:
Kábíẹ̀sílẹ!
E então é Kábiyèsí ou Kábíẹ̀sílẹ?
As duas expressões estão corretas.
A vida do Iorubá enquanto jornada ao longo da superfície do planeta Terra deve ser guiada pelo manuscrito sagrado (composto por livros orais denominados Odú) chamado Ifá. Essa jornada está repleta de obstáculos (Ajogun) que são as forças contrárias a afirmação do homem sobre o comando da sua jornada individual e coletiva. Voluntariamente ou involuntariamente, a humanidade acabará por ter que enfrentar essas forças, dentre as quais está Ikú [Morte]. Os pés são a ligação direta do corpo com a terra, a grande bacia na qual o cainho a ser seguido está traçado. Os pés não detém poder de decisão sobre o caminho. Esse poder é atributo de Ori, o ser inteligente que mora na cabeça física do indivíduo e conhece o seu destino antes durante de depois. É Ori que vê, que sabe que existe um outro Ori conhecedor do caminho traçado pelo contrato ancestral para dar ao indivíduo membro da sociedade Iorubá a guia fórmula para a sua caminhada. Esse Orí Principal mora na cabeça daquele nascido para ser coroado: O Rei. Portanto, para aspirar ao sucesso, os pés devem estar em harmonia com a cabeça comandante e esta cabeça deve estar alinhada e sintonizada com a matriz sagrada: Ifá
Daí o pináculo da sociedade, o chefe sacerdotal do processo litúrgico. Por essa função exige que o rei deva ser necessariamente um rei sacerdotal. Em Ifé é o Ooni, e em Oyó é o Aláàfin (que significa “Dono do Palácio, que é o Templo Absoluto).Por isso é que se saúda o Rei dizendo:

“Kábiyèsí o, ọba aláṣẹ, ikeji òrìṣà, ki adé pẹ lórí, ki bàtà pẹ lẹsẹ, ki ìrùkẹrẹ pẹ lọwọ,
Ki ẹṣin ọba jẹ ko pẹ o, Kábiyèsí o".
 
Tradução
Salve, Ó Majestade, Rei poderoso (dono do axé), segunda pessoa dos deuses, salve a Coroa que que orna Vossa nobre cabeça, salve o Calçado sob os Vossos pés. Salve o Irukere que porta na sua mão. Que o seu cavalo coma a grama (tenha força para carrega-lo)/que voce tenha longa. Salve, Ó Majestade.
 
Ou seja, o assessor real nos pedia para suadar o rei somente como Monarca e não como Sacerdote Mor. Por que....???
Na próxima semana tem mais sobre Xangô, que Ele assim nos conceda.

Referencias:
1.      Aṣe ati Òrìṣà Ilẹ Yoruba; pg. 285
3.
 
 

 

Saturday, February 17, 2018

A força do ọfọ̀ no discurso mágico do Àdúrà



A benção aos meus mais velhos e aos meus mais novos também.
O iorubá costuma dizer:
 
“Àdúrà ló ńgbà, agbára ki gbà

Lati ọjọ́ ti aláyé ti dá ayé ni Yorùbá ti ni ìgbàgbọ́ ninu ki a gba àdúrà nitori pe ohun gbogbo fẹ́ àdúrà “Ohun ti o dára fẹ́ àdúrà ki ó bà lé dára si, eyi ti kò dára na fẹ́ àdúrà ki ó bà lé yanjú ...”. 

Tradução

“ A oração traz o que a força não traz

Desde a criação, o povo iorubá sempre acreditou em orar porque todas as coisas requerem oração. ‘O que é bom exige oração para sustento, o que é ruim requer oração para sua solução’ ...".
 
Na minha modesta opinião, a interpretação vigente que pauta o Candomblé vem a se constituir uma das nossas maiores vulnerabilidades e que está sendo habilmente explorada pelas correntes da intolerância.
Nós, de um modo geral, entendemos que a liturgia é uma atividade dissociada da história, ou seja: a liturgia é objeto de ensino e aprendizagem prática, distante de um exercício intelectual e isso não é, nunca foi e nunca será uma leitura confiável do quadro real. Um dos fundamentos da liturgia é o conhecimento dos itán. Os ẹbọ repetem as inspirações que levaram os Ẹbọra (Homens que se tornaram Orixás) às vitorias ao longo das suas incríveis jornadas e as Ayabás a construírem os seus legados de empoderamento.
Quanto mais se conhece os itán, hoje acessíveis vias literatura, maior o conhecimento sobre os ẹbọ.  
No fundo os nossos irmãos ainda consideram que fazer Candomblé é uma atividade restrita à habilidade prática de fazer ẹbọ.
Repetindo todas as bênçãos que mencionei acima, peço “àgò” para discordar. O amalgama de religiões referidas pela palavra Candomblé vai além dessa fronteira para se inserir em um contexto mágico social. Candomblé é um estilo de vida que toma a magia como essência da sua existência nas dimensões espaço temporais intangíveis do Universo, e toma a história como sua pedra de fundamento dentro do contexto da evolução social do homem africano no continente negro e no resto do mundo.
O Candomblé é um fragmento do grande iceberg que é o Ifá, um sistema filosófico e histórico que se constitui um testemunho privilegiado do surgimento e florescimento de civilizações africanas que, em múltiplos de milênios, antecederam o advento da Europa do homem branco. Sem essa base, o Candomblé estará reduzido ao exercício atávico de um movimento de resistência pontual semelhante ao que se viu  no gueto de Varsóvia durante a Segunda Guerra, e o tempo de existência e resistência do Candomblé na corrobora tal tipificação. Penso que a linguagem é uma parte fundamental da comunicação com a Ancestralidade. É o veículo do ọfọ̀ (palavra que transforma verbo em magia).
É aí que se torna interessante notar como o distanciamento resultante do não alinhamento transnacional (que resulta do nosso isolamento linguístico, no momento em que não dominamos qualquer das línguas da Costa ocidental da África, envolvidas no nosso processo litúrgico) em nível de manutenção de estruturas de comunicação litúrgica atualizada, influi para que algumas adaptações se desenvolvam alheias ao fluxo de informação concatenada entre as duas margens do Atlântico. Assim, sem o domínio do idioma que promova a comunhão se torna difícil o traçado de uma linha que auxilie a elucidação dos elos entre o que se passou na África e o que se consolidou por aqui.
Concluo essa breve intervenção, pleiteando que o nosso exercício litúrgico se debruce sobre a  humildade, a contrição e a dedicação ao processo litúrgico, para qual penso imprescindível o domínio litúrgico da língua Iorubá. 


Referencia:


Tuesday, February 13, 2018

Savalu Nagô Vodun, um breve mergulho na liturgia



O segmento Afro-ocidental da diáspora africana na Bahia tem na prática litúrgica cotidiana uma série de procedimentos os quais não apresentam diferenças evidentes de forma a caracterizar um Culto aos Voduns do Daomé distinto de um Culto aos Orixás.
Essa amalgama de cultos e manifestações litúrgicas associadas à divindades afro ocidentais, se apresenta e muitas vezes é referida como liturgia Nagô-Vodun. Nessa prática litúrgica alguns Orixás são cultuados como Voduns. Mas, e os Voduns do Daomé?
Um dos pontos mais relevantes em torno dessas liturgias é a ênfase dada a uma pretensa dicotomia entre as práticas litúrgicas, de um lado Savalu e do outro Iorubá-Nagô, quer dizer: No Savalu parece existir uma crença entre os sacerdotes da área da Bahia, de que a prática litúrgica Savalu é uma herança exclusivamente Vodun, ou seja, que a liturgia ali praticada é uma herança direta da religião dos Voduns do Daomé. Ou ainda, que a liturgia Savalu não tem qualquer relação com a religião Orixá dos Iorubá. Tal distanciamento não parece provável, devido a uma série de aspectos demográficos e históricos de Savalu os quais depõem diretamente contra tal crença. Talvez uma breve análise da conjuntura histórica e demográfica do Reino de Savalu ajude a colocar uma luz sobre essa questão.
O Reino de Savalu está hoje reduzido ao município de Savalou, localizado no sudoeste do território ocupado pela República do Benin. Partilha as suas fronteiras com as comunas de Dassa-Zoumè e Glazoué no Oriente; de Djidja ao Sul, de Bantè ao Norte e da República do Togo ao Oeste por cerca de 65 km (limite norte-sul). Ele se estende quase 58 km de oeste a leste e cobre uma área de 2.674 km²; 2,37% do território nacional (CoForMO, 2017).
Com relação a prática litúrgica que se convencionou denominar Jeje Savalu vamos ver dez pontos interessantes que podem ajudar a construção de uma visão mais clara da questão. 

1.            Os Nagô são uma população da África Ocidental que vive principalmente no Benin. Seu número foi estimado entre 50.000 e 60.000 na década de 1980. A maioria vive em Kétou, Savé, Doumé, ao norte de Abomey e Porto-Novo, a capital, onde estão mais perto dos Gouns (povo também descendente dos Iorubá e que ainda falam essa língua). Eles geralmente têm um alto nível de educação e ocupam um lugar significativo na esfera pública;

2.            A grande diáspora Nagô no Brasil, está particularmente concentrada na Bahia, onde foi estudada exaustivamente pelos etnólogos franceses Roger Bastide e Pierre Verger.

3.            Os reis de Savalu, desde a sua fundação são da linhagem Gbaguidi [Gbagidi], que é um termo Iorubá que significa literalmente " líder efetivo". Este nome foi dado durante sua coroação ao primeiro rei em 1557 depois de domesticar um búfalo, um animal que simboliza brutalidade selvagem. O reino de Savalou foi fundado no início do século XVII pelo rei Soha Gbaguidi I, espalhou-se por um território que corresponde aproximadamente à metade ocidental do Departamento das Colinas [ Collines], centro da atual República de Benin, incluindo a cidade de Savalou.Ou seja, o nome da linhagem real é um nome Iorubá. O reino de Savalu foi fundando sobre um reinado Nagô.

4.            Nos portões da cidade, pode-se ver uma grande estátua feita em terracota no centro de um parque que representa esse rei. Esta linha foi aliada dos Reis de Abomey. Esta dinastia ainda reina no em Savalu: o atual rei é Gbaguidi Gandjègni Awoyo XIV.

5.            A população de Savalou é composta principalmente dos grupos étnicos Mahi e Ifé (que é uma etnia Iorubá);

6.            Os grupos étnicos Fòn, Aja, Peulh e Batammariba são também representados

7.            Os dois principais grupos étnicos no município são o grupo Adja-Tado e o grupo Iorubá.

8.            O grupo Adja-Tado é composto pelas etnias Fòn e Mahi, que é uma etinia Guarda-chuva, ou seja, não existe uma etnia Mahi original. É uma mistura de pequenas retinias.

9.            O Mahi é um dialeto relacionado linguisticamente ao Fòn, que é a língua falada principalmente no Sul e no centro do Benim.

10.         Os Mahi de Savalou constituem uma minoria estabelecida entre os Nagô que povoam a maior parte do centro do Benin.

A influência dos Nagô pode ser avaliada se for observado, por exemplo, que o presidente da República do Benim eleito em 2006, Yayi Boni, é de origem nago por parte de pai.

 

Referencia:

1.    Savalou; https://fr.wikipedia.org/wiki/Savalou (acessado em: 11/02/18);

2.    Le communes de le espace CoForMo; http://coformo.com/index.php/savalou (acessado em: 11/02/18) ;

Friday, February 2, 2018

A história Iemanjá



Na liturgia Jeje-Nagô, a saudação a esse orixá é Ẹrú Iyá, que significa, Mãe dos escravos”. Talvez a história de Iemanjá explique a identificação desse maravilhoso Orixá com aqueles que sofrem.
O livro do seminal “Awọn Àṣà ati Orìṣà Ilẹ Yoruba” [ Tradições e Orixás da Terra Iorubá], escrito pelos professores Olu Daramola e Adebayo Jeje, e publicado pela primeira vez em 1967, nas páginas 247 a 249, conta a história de Iemanjá.
Nessa narrativa, Aginju e Iemanjá são filhos nascidos do casal Obatalá e Oduduwa, onde Obatalá é o pai e Oduduwa é a mãe. Obatalá na condição de Orixanlá vem a ser o líder de todos os Orixás masculinos enquanto Oduduwa seria a líder de todos os Orixás femininos. Essa narrativa, inclusive, contraria a maioria das versões orais sobre os Orixás, nas quais Odudua seria um Orixá masculino, pais físico de todos os Iorubá e fundador da cidade sagrada de Ile-Ifé.
            No dicionário “The First Ilustrated Yoruba Dictionary” [Primeiro Dicionário Ilustrado Iorubá] página 10, o verbete Aginjù tem como texto explicativo: Aginjù (n.) “1. desert, 2. wildernes, 3. uninhabitated land [ tradução: Aginjù (substantivo.) "1. deserto, 2. região selvagem, 3. terra desabitada].
O povo Iorubá, como uma grande variedade das culturas africanas, é marcadamente uma civilização formada com base no aprendizado direto dos processos da natureza. É por isso que, com relação a Aginju, se acredita que, maravilhados com a autonomia, a pujança, e a capacidade de restauração da vida nas matas e floresta, os Iorubá passaram a adorar Aginju, rendendo-lhe culto e homenagem. Em outros segmentos étnicos dentro dessa mesma cultura, o orixá Ilẹ [Terra] é adorado pelas mesmas características e atribuições de Aginju.
 A palavra Iemanjá é forma de escrita em alfabeto romano da palavra Iorubá Yemọja, cuja etimologia é: Ye que é uma compressão da palavra Yeye que significa mamãe + mọ que é uma compressão da palavra ọmọ que significa filho, criança, + ja que é, por sua vez, uma compressão da palavra ẹja que significa peixe.  Assim Yemọja [Iemanjá] significa “ Mãe dos filhos peixes. A essa divindade foi dado reinar sobre os cursos e corpos de água.
Conta a história que Aginju cresceu rapidamente e passou a buscar uma mulher para desposar. Ele era irmão de Iemanjá, que se tornou uma mulher da cor de ébano e de busto avantajado pela presença de seios enormes, com os quais nutre o mundo. Naquela época havia uma escassez de mulheres, e isso teria levado Aginju a desposar sua propria irmã Iemanjá. Dessa união carnal nasceu um filho ao qual foi dado o nome de Orungan. 
Esse filho cresceu rapidamente, e ao atingir a maturidade sexual buscou uma mulher para tomar como esposa. Não encontrando alternativa, possuiu sua propria mãe, Iemanjá.     
Esse ato abominável se tornou uma fonte insustentável de inquietação para Iemanjá, assim como também para Orungan. Iemanjá abandonou a sua posição de divindade e fugiu para o desconhecido Orungan por sua vez, decidiu foi tomado por pensamentos ruins e passou a buscar sua mãe para matá-la.
Depois de algum tempo de busca pela sua mãe ele a encontra no deserto. Mas ela também o avista e consegue escapar dele. Ele a persegue e no fim dessa perseguição, Iemanjá cai, e seu estômago explode de onde saem dezesseis orixás, dentre eles Olosa, a divindade dos lagos; Olokun, a divindade dos oceanos; Dada, a divindade da vegetação; Oxum, que se transformaria no orixá a orixá Oxum); Aje Saluga, a divindade da riqueza/ cauris; etc.

Referencia:

1.       DARAMOLA, O. JEJE, A. Awọn Àṣà ati Orìṣà Ilẹ Yoruba” [ Tradições e Orixás da Terra Iorubá], ONIBON-OJE PRESS, Ibadan, Nigéria 1ª Edição; 1967.

Wednesday, December 6, 2017

Amoreira o atin de Kútútɔ




A Amoreira é uma árvore cujo fruto, a amora, é apreciado no mundo todo. Seu porte é médio, alcançando de 4 a 12 metros de altura. As folhas são simples, ovaladas de bordas dentadas e recobertas por uma pilosidade que as torna ásperas ao toque. As flores aparecem no final do inverno e se aglomeram formando espigas. Para a ciência ocidental essa espécie botânica é classificada como árvore frutífera e medicinal.

A Amoreira é uma árvore sagrada para as religiões de matriz africana. Pertencendo a Oyá e ao Ile Ibó Iku [Ilé Ibọ Iku], a sua sombra é uma sede para a reunião de Espíritos e desencarnados, e por isso desaconselhável a sua utilização como refúgio do sol, por um longo tempo. No Savalu, esses espíritos são referidos pelo termo Kutitó, que é uma corruptela do termo Kútútɔ́ que na língua fòn significa, literalmente, “morto que continua em pé (no alto) ”.

É do galho da Amoreira que se fabrica o Ixán, uma varinha ritual usada pelos sacerdotes para controlar os Eguns quando visitam o Aye. O processo de fabricação desse bastão ritualístico é de conhecimento exclusivo dos Babalossaim [Babalossanyn] ou pelos Sacerdotes do Culto aos Egúngún.

Referencias


(Acessado em 06/12/17);

Thursday, August 10, 2017

Ìpínlẹ̀ Èkó ṣe Àjọyọ̀ Ìdásílẹ̀ Àádọ́ta Ọdún



Traduzindo o título para o Português, se lê: “A criação de Lagos festeja seus cinquenta anos” a Iorubá, use-a, caso contrário, você irá perde-la”.

Os Iorubá se constituem em um dos maiores grupos étncos da África com origens ao sul do deserto do Saara. Eles não são, de fato, um único grupo, mas sim uma coleção de pessoas diversas ligadas por uma linguagem, história e cultura comuns. Dentro da Nigéria, os Iorubá dominam a parte ocidental do país. A mitologia Iorubá sustenta que todo o povo Ioruba descende de um herói chamado Odua ou Oduduwa. Hoje, há mais de cinquenta indivíduos que reivindicam a realeza como descendentes de Odua. Durante os quatro séculos do tráfico de escravos, o território Iorubá foi parte da região que ficou conhecida como a Costa dos Escravos. Um número incalculável de Iorubá foi levado para as Américas. Seus descendentes preservaram as tradições Iorubá. Em várias partes do Caribe e América do Sul, a religião iorubá foi combinada com o cristianismo.

            Em 1893, os reinos Ioruba na Nigéria tornaram-se parte do “Protetorado da Grã-Bretanha”. Até 1960, a Nigéria era uma colônia britânica e os Iorubá eram súditos da coroa britânica. Em 1 de outubro de 1960, a Nigéria se tornou uma nação independente e estruturada como uma federação de estados.
A língua Iorubá pertence à família dos idiomas Congo-Kordofaniano. São muitos os dialetos que compõem a forma de comunicação denominada língua Iorubá. Entretanto o que os caracteriza como língua Iorubá é o traço comum de mútuo entendimento entre os falantes.
O Iorubá é uma língua tonal. A mesma combinação de vogais e consoantes tem diferentes significados, dependendo do tom das vogais (seja pronunciado com voz alta ou baixa voz). Por exemplo, a mesma palavra, “aro”, pode significar címbalos, tintura índigo, lamentação e celeiro, dependendo da entonação. Pele o é "Olá"; "Bawo ni"? É "como você está?". E "Dada ni" está "tudo bem, obrigado".
O Iorubá falado nos dias atuais é uma forma de comunicação dinâmica e efetiva, sendo listada entre as línguas em uso na África dos nossos dias.
Por exemplo, um texto publicado sobre o aniversário de fundação de Lagos como primeira capital da Nigéria, ao ser consolidada como República Federativa, está escrito assim:
 
“ Ìjọba-àpapọ̀ sọ Èkó di ìpínlẹ̀ ni àádọ́ta ọdún sẹhin.  Èkó jẹ́ olú ilú fún gbogbo orilẹ̀ èdè Nigeria tẹ́lẹ̀ ki wọn tó gbe lọ si Abuja.  Ìpínlẹ̀ Èkó jẹ ikan ninú ipinle mẹ́fà Yorùbá.

Yorùbá ni “Èkó gba olè, ó gba ọlẹ”, ọ̀rọ̀ yi jẹ wi pé kò si irú ẹni ti ko si ni ìpínlẹ̀ Èkó nitori Èkó gba olówó, ó si gba aláini àti wi pé iṣẹ́ pọ̀ ni Èkó ju gbogbo ìpínlẹ̀ yoku lo.  Kò si ẹ̀yà tàbi ẹ̀sìn Nigeria ti kò si ni Èkó.  Nitori èyi èrò pọ̀ jù ilẹ̀ lọ nitori omi ló yi Èkó ká.”

Tradução

O governo federal da Nigéria criou o estado de Lagos há cinquenta anos. Lagos era a antiga capital da Nigéria antes de a capital ter sido transferida para Abuja. Lagos é um dos seis Estados Iorubá.
De acordo com um dito popular Iorubá, “Lagos acomoda os ladrões e os preguiçosos”, o que quer dizer que o rico e o pobre, qualquer pessoa pode viver em Lagos, pois não há grupo étnico que não esteja representado naquele Estado e também por que há mais oportunidades de trabalho em Lagos do que outros Estados do país.

Refrencias:




 

Wednesday, August 2, 2017

O Culto a Xangô se confunde com o Culto aos Ji-Vodun: É Nagô-Vodun, ou Vodun-nagô?




 

Em uma cerimonia pública de candomblé, os povos de várias casas  e várias vertentes se reúnem para festejar Xangô, se a casa na qual se realiza o festejo, é de orientação Quêto-Nagô. Se a casa em questão é de orientação Jeje, por exemplo, o povo pode se reunir para festejar Sobô.
Caso tomemos como base a essência litúrgica original assumida nominalmente por cada uma das nações citadas, não encontraremos, ao observar as festividades, as diferenças fundamentais que caracterizariam uma ou outra liturgia e a diferenciação entre as casas seja  tradição Quêto-Nagô ou Jeje, é uma prática litúrgica idêntica. Não se percebe diferença e, daí, se evidencia mais uma prova contundente e incontornável do amalgama das duas tradições em um só contexto Jeje- Nagô aqui na nossa Bahia.

Entretanto, há uma diferença fundamental que passa despercebida e eu gostaria de realçar.
No Quêto-Nagô, com base profunda e indiscutível na sua excelente Liturgia a comunidade em cântico e oração, pede distância do fogo de Xangô, e isso fica muito claro em dos mais destacados cânticos de louvor, entoado nas cerimonias públicas. Vejamos o que diz o cântico:


   Má iná iná

   Iná iná.

                                  Ọba Kòso

                                  Má iná iná

                                

Traução

Não nos mande fogo,

Oh, Rei de Kosô

 

 No Jeje, ao contrário, os devotos convidam o fogo para dentro do Templo.
Um dos mais expressivos exemplos dessa diferença é a Festa da Fogueira, ou como dizemos em língua fòn [fɔngbè] Zogodé que significa “o Fogo Pleno Desce a Terra”.
Para os Jeje, o fogo é um dos elementos da dinâmica da multiplicação da vida segundo a cosmogonia jeje, na sua plenitude e na sua promessa de continuidade da vida,
o cântico que recebe a entrada triunfal do Vodun, anuncia, na Voz do Solista [Kútó] achegada desse fogo, trazido pelo Vodun vivo. 

Zogodê ê Zogodê
Ê Zogodê Ê Zogodê
         Aklunó Zô náá sin bê wê
         Aklunó Zô náá sin bê wê
Naturalmente, que esse texto musical repetido por todos os presentes é a forma confortável para nós falantes do Português. O mesmo texto escrito na língua original, ou seja, o texto fòn, seria o seguinte:



Zogɔ̆ d’ɛ́ , É Zogɔ̆ d’ɛ́ 

 É Zogɔ̆ d’ɛ́, É Zogɔ̆ d’ɛ́
      Aklúnɔ̀  Zo náá sìn gbè wĕ
    Aklúnɔ̀  Zo náá sìn gbè wĕ

 

Os versos desse cântico dizem:


Zogodê = O Fogo Pleno Desce a Terra
Ele desce a Terra, Ele desce a Terra
O Senhor (do) Fogo vem líquido e visível.
O Senhor (do) Fogo vem líquido e visível

 Analisando a etimologia das palavras que compõem o cântico, vemos que: Zogɔ̆ d’ɛ́ envole as palavras Zo = Fogo + Gɔ̆= pleno, cheio + D’ɛ́ = desce à terra, vem em terra firme. Aklúnɔ̀ = Senhor, Mestre, Dono. Daí, Aklúnɔ̀ Zo = Deus Fogo, Fogo Divino, Deus do Fogo; Náá = Ná (partícula que indica uma direção, indica o futuro) + á = Diretamente, certamente.Sìn = Liquido, água, que flui, que escorre
Gbè Wĕ (Gbè Wè Wĕ) = Ser branco, ser claro, ser (se tornar) visivel.
Essas são algumas das diferenças que passam despercebidas devido a ausencia de uma escolaridade litúrgica. Vamos estudar para promover a prática desses resgates.