Tuesday, February 13, 2018

Savalu Nagô Vodun, um breve mergulho na liturgia



O segmento Afro-ocidental da diáspora africana na Bahia tem na prática litúrgica cotidiana uma série de procedimentos os quais não apresentam diferenças evidentes de forma a caracterizar um Culto aos Voduns do Daomé distinto de um Culto aos Orixás.
Essa amalgama de cultos e manifestações litúrgicas associadas à divindades afro ocidentais, se apresenta e muitas vezes é referida como liturgia Nagô-Vodun. Nessa prática litúrgica alguns Orixás são cultuados como Voduns. Mas, e os Voduns do Daomé?
Um dos pontos mais relevantes em torno dessas liturgias é a ênfase dada a uma pretensa dicotomia entre as práticas litúrgicas, de um lado Savalu e do outro Iorubá-Nagô, quer dizer: No Savalu parece existir uma crença entre os sacerdotes da área da Bahia, de que a prática litúrgica Savalu é uma herança exclusivamente Vodun, ou seja, que a liturgia ali praticada é uma herança direta da religião dos Voduns do Daomé. Ou ainda, que a liturgia Savalu não tem qualquer relação com a religião Orixá dos Iorubá. Tal distanciamento não parece provável, devido a uma série de aspectos demográficos e históricos de Savalu os quais depõem diretamente contra tal crença. Talvez uma breve análise da conjuntura histórica e demográfica do Reino de Savalu ajude a colocar uma luz sobre essa questão.
O Reino de Savalu está hoje reduzido ao município de Savalou, localizado no sudoeste do território ocupado pela República do Benin. Partilha as suas fronteiras com as comunas de Dassa-Zoumè e Glazoué no Oriente; de Djidja ao Sul, de Bantè ao Norte e da República do Togo ao Oeste por cerca de 65 km (limite norte-sul). Ele se estende quase 58 km de oeste a leste e cobre uma área de 2.674 km²; 2,37% do território nacional (CoForMO, 2017).
Com relação a prática litúrgica que se convencionou denominar Jeje Savalu vamos ver dez pontos interessantes que podem ajudar a construção de uma visão mais clara da questão. 

1.            Os Nagô são uma população da África Ocidental que vive principalmente no Benin. Seu número foi estimado entre 50.000 e 60.000 na década de 1980. A maioria vive em Kétou, Savé, Doumé, ao norte de Abomey e Porto-Novo, a capital, onde estão mais perto dos Gouns (povo também descendente dos Iorubá e que ainda falam essa língua). Eles geralmente têm um alto nível de educação e ocupam um lugar significativo na esfera pública;

2.            A grande diáspora Nagô no Brasil, está particularmente concentrada na Bahia, onde foi estudada exaustivamente pelos etnólogos franceses Roger Bastide e Pierre Verger.

3.            Os reis de Savalu, desde a sua fundação são da linhagem Gbaguidi [Gbagidi], que é um termo Iorubá que significa literalmente " líder efetivo". Este nome foi dado durante sua coroação ao primeiro rei em 1557 depois de domesticar um búfalo, um animal que simboliza brutalidade selvagem. O reino de Savalou foi fundado no início do século XVII pelo rei Soha Gbaguidi I, espalhou-se por um território que corresponde aproximadamente à metade ocidental do Departamento das Colinas [ Collines], centro da atual República de Benin, incluindo a cidade de Savalou.Ou seja, o nome da linhagem real é um nome Iorubá. O reino de Savalu foi fundando sobre um reinado Nagô.

4.            Nos portões da cidade, pode-se ver uma grande estátua feita em terracota no centro de um parque que representa esse rei. Esta linha foi aliada dos Reis de Abomey. Esta dinastia ainda reina no em Savalu: o atual rei é Gbaguidi Gandjègni Awoyo XIV.

5.            A população de Savalou é composta principalmente dos grupos étnicos Mahi e Ifé (que é uma etnia Iorubá);

6.            Os grupos étnicos Fòn, Aja, Peulh e Batammariba são também representados

7.            Os dois principais grupos étnicos no município são o grupo Adja-Tado e o grupo Iorubá.

8.            O grupo Adja-Tado é composto pelas etnias Fòn e Mahi, que é uma etinia Guarda-chuva, ou seja, não existe uma etnia Mahi original. É uma mistura de pequenas retinias.

9.            O Mahi é um dialeto relacionado linguisticamente ao Fòn, que é a língua falada principalmente no Sul e no centro do Benim.

10.         Os Mahi de Savalou constituem uma minoria estabelecida entre os Nagô que povoam a maior parte do centro do Benin.

A influência dos Nagô pode ser avaliada se for observado, por exemplo, que o presidente da República do Benim eleito em 2006, Yayi Boni, é de origem nago por parte de pai.

 

Referencia:

1.    Savalou; https://fr.wikipedia.org/wiki/Savalou (acessado em: 11/02/18);

2.    Le communes de le espace CoForMo; http://coformo.com/index.php/savalou (acessado em: 11/02/18) ;

Friday, February 2, 2018

A história Iemanjá



Na liturgia Jeje-Nagô, a saudação a esse orixá é Ẹrú Iyá, que significa, Mãe dos escravos”. Talvez a história de Iemanjá explique a identificação desse maravilhoso Orixá com aqueles que sofrem.
O livro do seminal “Awọn Àṣà ati Orìṣà Ilẹ Yoruba” [ Tradições e Orixás da Terra Iorubá], escrito pelos professores Olu Daramola e Adebayo Jeje, e publicado pela primeira vez em 1967, nas páginas 247 a 249, conta a história de Iemanjá.
Nessa narrativa, Aginju e Iemanjá são filhos nascidos do casal Obatalá e Oduduwa, onde Obatalá é o pai e Oduduwa é a mãe. Obatalá na condição de Orixanlá vem a ser o líder de todos os Orixás masculinos enquanto Oduduwa seria a líder de todos os Orixás femininos. Essa narrativa, inclusive, contraria a maioria das versões orais sobre os Orixás, nas quais Odudua seria um Orixá masculino, pais físico de todos os Iorubá e fundador da cidade sagrada de Ile-Ifé.
            No dicionário “The First Ilustrated Yoruba Dictionary” [Primeiro Dicionário Ilustrado Iorubá] página 10, o verbete Aginjù tem como texto explicativo: Aginjù (n.) “1. desert, 2. wildernes, 3. uninhabitated land [ tradução: Aginjù (substantivo.) "1. deserto, 2. região selvagem, 3. terra desabitada].
O povo Iorubá, como uma grande variedade das culturas africanas, é marcadamente uma civilização formada com base no aprendizado direto dos processos da natureza. É por isso que, com relação a Aginju, se acredita que, maravilhados com a autonomia, a pujança, e a capacidade de restauração da vida nas matas e floresta, os Iorubá passaram a adorar Aginju, rendendo-lhe culto e homenagem. Em outros segmentos étnicos dentro dessa mesma cultura, o orixá Ilẹ [Terra] é adorado pelas mesmas características e atribuições de Aginju.
 A palavra Iemanjá é forma de escrita em alfabeto romano da palavra Iorubá Yemọja, cuja etimologia é: Ye que é uma compressão da palavra Yeye que significa mamãe + mọ que é uma compressão da palavra ọmọ que significa filho, criança, + ja que é, por sua vez, uma compressão da palavra ẹja que significa peixe.  Assim Yemọja [Iemanjá] significa “ Mãe dos filhos peixes. A essa divindade foi dado reinar sobre os cursos e corpos de água.
Conta a história que Aginju cresceu rapidamente e passou a buscar uma mulher para desposar. Ele era irmão de Iemanjá, que se tornou uma mulher da cor de ébano e de busto avantajado pela presença de seios enormes, com os quais nutre o mundo. Naquela época havia uma escassez de mulheres, e isso teria levado Aginju a desposar sua propria irmã Iemanjá. Dessa união carnal nasceu um filho ao qual foi dado o nome de Orungan. 
Esse filho cresceu rapidamente, e ao atingir a maturidade sexual buscou uma mulher para tomar como esposa. Não encontrando alternativa, possuiu sua propria mãe, Iemanjá.     
Esse ato abominável se tornou uma fonte insustentável de inquietação para Iemanjá, assim como também para Orungan. Iemanjá abandonou a sua posição de divindade e fugiu para o desconhecido Orungan por sua vez, decidiu foi tomado por pensamentos ruins e passou a buscar sua mãe para matá-la.
Depois de algum tempo de busca pela sua mãe ele a encontra no deserto. Mas ela também o avista e consegue escapar dele. Ele a persegue e no fim dessa perseguição, Iemanjá cai, e seu estômago explode de onde saem dezesseis orixás, dentre eles Olosa, a divindade dos lagos; Olokun, a divindade dos oceanos; Dada, a divindade da vegetação; Oxum, que se transformaria no orixá a orixá Oxum); Aje Saluga, a divindade da riqueza/ cauris; etc.

Referencia:

1.       DARAMOLA, O. JEJE, A. Awọn Àṣà ati Orìṣà Ilẹ Yoruba” [ Tradições e Orixás da Terra Iorubá], ONIBON-OJE PRESS, Ibadan, Nigéria 1ª Edição; 1967.

Wednesday, December 6, 2017

Amoreira o atin de Kútútɔ




A Amoreira é uma árvore cujo fruto, a amora, é apreciado no mundo todo. Seu porte é médio, alcançando de 4 a 12 metros de altura. As folhas são simples, ovaladas de bordas dentadas e recobertas por uma pilosidade que as torna ásperas ao toque. As flores aparecem no final do inverno e se aglomeram formando espigas. Para a ciência ocidental essa espécie botânica é classificada como árvore frutífera e medicinal.

A Amoreira é uma árvore sagrada para as religiões de matriz africana. Pertencendo a Oyá e ao Ile Ibó Iku [Ilé Ibọ Iku], a sua sombra é uma sede para a reunião de Espíritos e desencarnados, e por isso desaconselhável a sua utilização como refúgio do sol, por um longo tempo. No Savalu, esses espíritos são referidos pelo termo Kutitó, que é uma corruptela do termo Kútútɔ́ que na língua fòn significa, literalmente, “morto que continua em pé (no alto) ”.

É do galho da Amoreira que se fabrica o Ixán, uma varinha ritual usada pelos sacerdotes para controlar os Eguns quando visitam o Aye. O processo de fabricação desse bastão ritualístico é de conhecimento exclusivo dos Babalossaim [Babalossanyn] ou pelos Sacerdotes do Culto aos Egúngún.

Referencias


(Acessado em 06/12/17);

Thursday, August 10, 2017

Ìpínlẹ̀ Èkó ṣe Àjọyọ̀ Ìdásílẹ̀ Àádọ́ta Ọdún



Traduzindo o título para o Português, se lê: “A criação de Lagos festeja seus cinquenta anos” a Iorubá, use-a, caso contrário, você irá perde-la”.

Os Iorubá se constituem em um dos maiores grupos étncos da África com origens ao sul do deserto do Saara. Eles não são, de fato, um único grupo, mas sim uma coleção de pessoas diversas ligadas por uma linguagem, história e cultura comuns. Dentro da Nigéria, os Iorubá dominam a parte ocidental do país. A mitologia Iorubá sustenta que todo o povo Ioruba descende de um herói chamado Odua ou Oduduwa. Hoje, há mais de cinquenta indivíduos que reivindicam a realeza como descendentes de Odua. Durante os quatro séculos do tráfico de escravos, o território Iorubá foi parte da região que ficou conhecida como a Costa dos Escravos. Um número incalculável de Iorubá foi levado para as Américas. Seus descendentes preservaram as tradições Iorubá. Em várias partes do Caribe e América do Sul, a religião iorubá foi combinada com o cristianismo.

            Em 1893, os reinos Ioruba na Nigéria tornaram-se parte do “Protetorado da Grã-Bretanha”. Até 1960, a Nigéria era uma colônia britânica e os Iorubá eram súditos da coroa britânica. Em 1 de outubro de 1960, a Nigéria se tornou uma nação independente e estruturada como uma federação de estados.
A língua Iorubá pertence à família dos idiomas Congo-Kordofaniano. São muitos os dialetos que compõem a forma de comunicação denominada língua Iorubá. Entretanto o que os caracteriza como língua Iorubá é o traço comum de mútuo entendimento entre os falantes.
O Iorubá é uma língua tonal. A mesma combinação de vogais e consoantes tem diferentes significados, dependendo do tom das vogais (seja pronunciado com voz alta ou baixa voz). Por exemplo, a mesma palavra, “aro”, pode significar címbalos, tintura índigo, lamentação e celeiro, dependendo da entonação. Pele o é "Olá"; "Bawo ni"? É "como você está?". E "Dada ni" está "tudo bem, obrigado".
O Iorubá falado nos dias atuais é uma forma de comunicação dinâmica e efetiva, sendo listada entre as línguas em uso na África dos nossos dias.
Por exemplo, um texto publicado sobre o aniversário de fundação de Lagos como primeira capital da Nigéria, ao ser consolidada como República Federativa, está escrito assim:
 
“ Ìjọba-àpapọ̀ sọ Èkó di ìpínlẹ̀ ni àádọ́ta ọdún sẹhin.  Èkó jẹ́ olú ilú fún gbogbo orilẹ̀ èdè Nigeria tẹ́lẹ̀ ki wọn tó gbe lọ si Abuja.  Ìpínlẹ̀ Èkó jẹ ikan ninú ipinle mẹ́fà Yorùbá.

Yorùbá ni “Èkó gba olè, ó gba ọlẹ”, ọ̀rọ̀ yi jẹ wi pé kò si irú ẹni ti ko si ni ìpínlẹ̀ Èkó nitori Èkó gba olówó, ó si gba aláini àti wi pé iṣẹ́ pọ̀ ni Èkó ju gbogbo ìpínlẹ̀ yoku lo.  Kò si ẹ̀yà tàbi ẹ̀sìn Nigeria ti kò si ni Èkó.  Nitori èyi èrò pọ̀ jù ilẹ̀ lọ nitori omi ló yi Èkó ká.”

Tradução

O governo federal da Nigéria criou o estado de Lagos há cinquenta anos. Lagos era a antiga capital da Nigéria antes de a capital ter sido transferida para Abuja. Lagos é um dos seis Estados Iorubá.
De acordo com um dito popular Iorubá, “Lagos acomoda os ladrões e os preguiçosos”, o que quer dizer que o rico e o pobre, qualquer pessoa pode viver em Lagos, pois não há grupo étnico que não esteja representado naquele Estado e também por que há mais oportunidades de trabalho em Lagos do que outros Estados do país.

Refrencias:




 

Wednesday, August 2, 2017

O Culto a Xangô se confunde com o Culto aos Ji-Vodun: É Nagô-Vodun, ou Vodun-nagô?




 

Em uma cerimonia pública de candomblé, os povos de várias casas  e várias vertentes se reúnem para festejar Xangô, se a casa na qual se realiza o festejo, é de orientação Quêto-Nagô. Se a casa em questão é de orientação Jeje, por exemplo, o povo pode se reunir para festejar Sobô.
Caso tomemos como base a essência litúrgica original assumida nominalmente por cada uma das nações citadas, não encontraremos, ao observar as festividades, as diferenças fundamentais que caracterizariam uma ou outra liturgia e a diferenciação entre as casas seja  tradição Quêto-Nagô ou Jeje, é uma prática litúrgica idêntica. Não se percebe diferença e, daí, se evidencia mais uma prova contundente e incontornável do amalgama das duas tradições em um só contexto Jeje- Nagô aqui na nossa Bahia.

Entretanto, há uma diferença fundamental que passa despercebida e eu gostaria de realçar.
No Quêto-Nagô, com base profunda e indiscutível na sua excelente Liturgia a comunidade em cântico e oração, pede distância do fogo de Xangô, e isso fica muito claro em dos mais destacados cânticos de louvor, entoado nas cerimonias públicas. Vejamos o que diz o cântico:


   Má iná iná

   Iná iná.

                                  Ọba Kòso

                                  Má iná iná

                                

Traução

Não nos mande fogo,

Oh, Rei de Kosô

 

 No Jeje, ao contrário, os devotos convidam o fogo para dentro do Templo.
Um dos mais expressivos exemplos dessa diferença é a Festa da Fogueira, ou como dizemos em língua fòn [fɔngbè] Zogodé que significa “o Fogo Pleno Desce a Terra”.
Para os Jeje, o fogo é um dos elementos da dinâmica da multiplicação da vida segundo a cosmogonia jeje, na sua plenitude e na sua promessa de continuidade da vida,
o cântico que recebe a entrada triunfal do Vodun, anuncia, na Voz do Solista [Kútó] achegada desse fogo, trazido pelo Vodun vivo. 

Zogodê ê Zogodê
Ê Zogodê Ê Zogodê
         Aklunó Zô náá sin bê wê
         Aklunó Zô náá sin bê wê
Naturalmente, que esse texto musical repetido por todos os presentes é a forma confortável para nós falantes do Português. O mesmo texto escrito na língua original, ou seja, o texto fòn, seria o seguinte:



Zogɔ̆ d’ɛ́ , É Zogɔ̆ d’ɛ́ 

 É Zogɔ̆ d’ɛ́, É Zogɔ̆ d’ɛ́
      Aklúnɔ̀  Zo náá sìn gbè wĕ
    Aklúnɔ̀  Zo náá sìn gbè wĕ

 

Os versos desse cântico dizem:


Zogodê = O Fogo Pleno Desce a Terra
Ele desce a Terra, Ele desce a Terra
O Senhor (do) Fogo vem líquido e visível.
O Senhor (do) Fogo vem líquido e visível

 Analisando a etimologia das palavras que compõem o cântico, vemos que: Zogɔ̆ d’ɛ́ envole as palavras Zo = Fogo + Gɔ̆= pleno, cheio + D’ɛ́ = desce à terra, vem em terra firme. Aklúnɔ̀ = Senhor, Mestre, Dono. Daí, Aklúnɔ̀ Zo = Deus Fogo, Fogo Divino, Deus do Fogo; Náá = Ná (partícula que indica uma direção, indica o futuro) + á = Diretamente, certamente.Sìn = Liquido, água, que flui, que escorre
Gbè Wĕ (Gbè Wè Wĕ) = Ser branco, ser claro, ser (se tornar) visivel.
Essas são algumas das diferenças que passam despercebidas devido a ausencia de uma escolaridade litúrgica. Vamos estudar para promover a prática desses resgates.

 


 
 
 



 
 

Monday, July 3, 2017

Zăn Gbεtɔ : A Realidade de uma “ficção” ocidental


Tradicionalmente, os Zangbetos eram os policiais de Benin e eram os principais guardiões da lei no país antes do estabelecimento oficial da lei. Dizem que eles formam uma sociedade secreta e que, quando em um transe, tem habilidades mágicas. Em transe, os Zangbeto evocam um poder que habitava a Terra muito antes da aparência do homem e forneceu uma fonte de sabedoria e continuidade para o povo de Benin.
Durante a cerimônia, eles se transformam, girando cada vez mais rápido e correndo em torno  da praça da vila enquanto são impedidos por seus "manipuladores". Eles correm batendo em aldeões e visitantes. Eventualmente, eles parecem paralisados. Os "manipuladores", então, batem os lados do palheiro com as mãos antes de levantá-lo do chão. Isso é para mostrar que nenhuma pessoa está embaixo da fantasia de palheiro. Ao invés de uma pessoa, algo mais é revelado: um crocodilo jovem (muito vivo e rápido), uma estatueta com braços em movimento, um crânio de animal comendo banana ou uma bebida alcoólica. O Zangbeto usou seus poderes mágicos para se transformar!
O viajante Ryan Thomas relata assim a sua experiencia com a visão dos Zangbeto: “De volta a praça da aldeia de Hlande, ainda estou perplexo com os Zangbetos e seus truques de mágica. Certamente, deve haver uma pessoa dentro daquele cone, girando o seu palheiro ao seu redor com uma velocidade cada vez maior. Se eu pudesse apenas vislumbrar a parte de baixo de um desses cones... Assim que terminei esse pensamento, um desses palheiros estava "estacionado" bem na minha frente. Para minha surpresa, quatro homens adultos se aproximaram do Zangbeto e derrubaram o cone na bem na minha frente: o cone estava completamente vazio! Eh!!!, eu pensei surpreso: Será que eu perdi alguma coisa? Talvez tenha havido um lapso de tempo no qual eu  entrei em uma realidade alterada (alternativa). Como isso aconteceu? Não tenho ideia senão uma coisa que eu sei com certeza - isso vai me causar algumas noites sem dormir.”

Thursday, March 14, 2013

Candonblé e Resistência:Carmen da Conceição Nazaré de Oliveira, Mãe Carmen do Gantois



No dia posterior a eleição do Papa Francisco, o Primeiro Pontífice da Igreja Católica, nascido na America Latina (oportunidade na qual acontece também pela primeira vez na história dessa mesma Igreja, a eleição de um franciscano para o cargo), venho dar continuidade a série intervenções que iniciei recentemente, nas quais cito mulheres as quais se constituem importantes lideranças políticas, em função da autenticidade e sabedoria demonstradas através das suas práticas diárias, sempre pautadas pela prudência e pela determinação na busca dos seus objetivos, os quais, invariavelmente, envolvem o bem estar do seu próximo.
Na Bahia, como é característica do projeto europeizante tocado pelas elites brasileiras pelos últimos 512 anos da nossa história, o Candomblé, tem sido ferozmente combatido e alvo de tentativas institucionalizadas de destruição dos seus valores,taxados como evidencias de “primitivismo e atraso”. É oportuno enfatizar o desenrolar de uma galvanização do referido caráter instrucional da discriminação contra o Candomblé, enquanto símbolo das Religiões de Matrizes Africanas, a partir de formações corporativas nas assembleias legislativas nas três esferas de decisão regulamentar da vida nacional, com raras e louváveis exceções. Nesse cenário, acreditem: a tarefa de conduzir o Candomblé “por esse mar de longo”, adicionando-lhe prestígio incontestável é tarefa para poucos. É partindo da plataforma intelectual composta por essas observações que mergulho na história dessa manifestação religiosa-cultural da qual sou Ministro, e pedindo a benção aos meus mais velhos,

Sua bênção meu Doté Amilton de Sogbo!: Vodun Aó!
Sua bênção Mãe Carmen!
Sua bênção Mãe Flor de Ogun!
Sua bênção Mãe Deca de Lemba!
A bênção Mãe Ninha Araundê,minha Comadre!
A bênção Egbon mi Mônica Millet!
A bênção Egbon mi Jaime Sodré!

 e comento um pouco sobre a descendência instalada no Terreiro do Gantois (do qual sou amigo e admirador antigo) a qual destaco, sem diminuir o igual brilho de muitas outras agremiações culturais-religiosas, conhecidas ou anônimas.
A tarefa que o Papa Francisco tem pela frente, de “recuperar o prestígio da Igreja Católica no mundo”, será marcada pelo caminho espinhoso da busca da conciliação de, entre tantas vertentes, de poderosos interesses antagônicos, de opiniões conflitantes defendidas por casas de poder dentro de uma organização administrada por indivíduos afeitos ao saber acadêmico e à organização do poder político em larga escala, porém, defensores de agendas marcadas por interesses corporativos, e, talvez, distantes das propostas de evangelização pela espiritualização do homem, salvo raras e louváveis exceções. Por isso, Deus o ajude!
Esse tipo de universo no qual o Papa Francisco adentrou ontem, 13 de março de 2013, na condição de líder, é, em escala reduzida, mas nem por isso menos complicada um espelho do universo característico de qualquer organização não tão grande, nas quais os seres humanos se associam para o exercício das suas práticas religioso-culrurais e o Candomblé não se constituiu exceção. Em função dessas características, seguramente, a baiana Carmem da Conceição Nazaré de Oliveira, ou melhor, Mãe Carmem do Gantois, tem lições de vida e conhecimentos em nível das necessidades protocolares comuns ao exercício vitorioso de uma liderança religiosa frutífera. Ou os leitores imaginam que reunir em um mesmo espaço pessoas de tão variados níveis da vida social do País em torno do serviço a “Orixá”, é tarefa fácil e pode ser tocada por leigos? É tarefa para privilegiados! Tem que ser exemplo de Fé, de Firmeza, de Maleabilidade e de Visão Política, e essas são algumas das características mais sólidas dessa Sacerdotisa, Mulher, Mãe, Guerreira e Política, no melhor sentido da terminologia.
Mãe Carmem de Oxalá é a Iyalorixá do Terreiro do Gantois, aqui na nossa cidade de Salvador, Bahia, Brasil. Ela é a filha mais nova de Mãe Menininha do Gantois e a irmã caçula de Mãe Cleusa Millet (já falecida). Carmem foi iniciada no Candomblé para Oxalá, seu pai de cabeça, quando ainda era criança e desde então, não parou mais de se aprofundar nos estudos religiosos e fazer suas obrigações espirituais. É Ela quem repete o que apreendeu com sua mãe, a Ialorixá Maior Mãe Meninha do Gantois, que hoje vive no Orun, com relação aos “da casa” ou aos frequentadores da casa, poderosos ou humildes. “Não sei se é doutor ou PhD. Todos são filhos”, decreta, com a experiência vivenciada nos dois lados, de filha e agora de mãe, na vida e na religião – cujas fronteiras, em sua trajetória, estão mais que embaraçadas. Além das manifestações de afeto e respeito, ela foi agraciada pela UNESCO, em 2010, com a Medalha dos Cinco Continentes ou da Diversidade Cultural.
Segundo a sua filosofia de vida, “Não há futuro sem base no passado”, Esse parece ser o lema da ialorixá que se mostra rígida com os preceitos, devotada à família e cada vez mais atenta à vontade de Orixá.
Casou-se jovem e mesmo assim, continuou na religião e trouxe o marido para ela. Assumiu o posto de Iyalorixá do Gantois - Terreiro mais famoso do Brasil. Ela traz o segredo do Axé tendo ao seu lado suas duas filhas: Mãe Ângela Oxum e Mãe Neli de Oxossi. Carmen nunca se afastou das obrigações espirituais nem do terreiro. Foi iniciada para Oxaguian (Oxalá jovem) aos 7 anos de idade e na infância costumava “brincar de candomblé”, fazendo vestimentas de plantas. E mal percebeu as brincadeiras virarem tarefas de adulto. Mãe Carmen líder o Ilê Ìyá Omi Àse Iyámasé, o Gantois, ao lado de duas filhas biológicas, três netos (todos iniciados), uma bisneta e muitas filhas de santo. Acrescentando os demais frequentadores do terreiro, iniciados ou não.
Do mesmo trono de Menininha, entalhado com o símbolo da casa – uma sobreposição de ferramentas e elementos de vários orixás –, Mãe Carmen afirma: “A hierarquia é um fato”. Mas, quando se trata do posto que ocupa, garante: “Não sou vaidosa”.Pela sua própria trajetória e personalidade, não há espaço para vaidades dessa natureza. Há sim, a necessidade de muita atenção e firmeza. “É uma responsabilidade muito grande, é preciso estar não com os seis, mas os dez sentidos ligados. Eu sou exigente, às vezes chego a desenhar as coisas como devem ser feitas, seguindo a tradição, o legado”, estabelece.
Carinhos, faixas e títulos servem de conforto para quem teve de se conciliar com as incertezas internas, até enfrentar o desafio de assumir o posto que fora da mãe, uma decisão que demorou quatro anos para ser efetivada, em um período repleto de especulações e cobranças. No Ilê Ìyá Omi Àse Iyámasé, localizado no Alto do Gantois, bairro da Federação, desde 1849, a sucessão se dá por laços sanguíneos e a hierarquia segue a linhagem matriarcal: só às mulheres é permitida a direção do templo.
 Sua benção Mãe Carmen!

*Esse post é uma homenagem a minha filha mais velha Maria das Graças (Gal) aniversariante de hoje, a minha esposa Solange, a minha filha Silvana, feita de Ossanhe,a sua Mãe Espiritual Araundê, (minha comadre), a minha prima Patrícia(ela sabe por que), a minhas primas Sara e Soráia, a minha (A bençao, minha comadre).

Referencias

1.      Mãe Carmen; Acesso: http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A3e_Carmem   (acessado em 14/03/2013);
2.      Santo forte; Brasileiros; Acesso: http://www.revistabrasileiros.com.br/2012/03/06/santo-forte/  (acessado em: 14/03/2013);